quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Livros na caixa. Livro ausente

Faz quase nove meses que mudei de casa para outra residência no mesmo bairro onde me encontrava, de forma que tudo pode se ajeitar perfeitamente. Tudo não. Quase tudo. Apesar do tempo, ainda não montei minha tão sonhada estante com livros, o que significa que meus livros encontram-se encaixotados. Ou melhor, acomodados em uma grande e imensa caixa que fica ao lado do meu guarda-roupa, esperando pacientemente que eu dê um destino mais digno a eles.
 
Para quem ama livros, anda diariamente com eles e se aventura por suas páginas é inconcebível uma situação dessas. Bom, pelo menos era assim que eu pensava até há pouco tempo, uma semana para ser mais exata. É que foi mais ou menos por essa época que me deparei com um artigo na edição 11 ½ da revista Serrote, publicação quadrimestral do Instituto Moreira Salles que foi distribuída especialmente na Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, em julho último.
Intitulado “A vida encaixotada”, (veja aqui), o artigo é assinado por Rodrigo Fresán, escritor e jornalista argentino, autor de La velocidad de las cosas (1998) e Jardins de Kesington, publicado no Brasil pela Conrad em 2007. O artigo foi publicado originalmente na revista literária Eñe no verão de 2008.
Nele, o autor discorre primeiramente sobre um ensaio do escritor John Cheever sobre a difícil arte de se mudar, mas questiona a falta de linhas sobre aquilo que acontece com os livros nas mudanças. “Abundam os diários de leituras, mas não sei da existência de nenhum diário que trate da mudança dessas leituras, de todo esse vivíssimo peso morto”, declara Fresán, antes de iniciar um diário que vai de 5 de fevereiro a 23 de abril, período em que se mudou de casa e se propôs a tarefa de arrumar sua biblioteca.
 
O interessante é vê-lo descrever desde o encaixotamento dos seus livros, passando pela mudança propriamente dita, a chegada à nova residência, a compra de novos livros sendo que os antigos ainda se encontravam encaixotados, a lembrança de outras bibliotecas e livros, até chegar à data estipulada do término da arrumação sem ter concluído seu intento. E é aí que encontro consolo, embora meu tempo de arrumação seja bem maior que o dele. Mas tenho como atenuante o fato de não possuir uma estante física para acomodar os meus livros, ao passo que Fresán sim.
 
Seja como for, desencaixotar e arrumar os livros não é uma algo assim tão fácil, por isso vamos protelando, mas não sem pagar um preço por isso. No meu caso, vivo abrindo a minha caixa e – tarefa ingrata – vasculho a procura de um livro ou outro que quero reler ou ler, até chegar à inglória descoberta de que o exemplar está lá no fundo. É preciso remover os de cima para então se chegar até eles, o que fatalmente acaba me desanimando.
 
Mais triste, porém, é descobrir que o livro que se procura não está mais entre os outros exprimidos na caixa. Sabe-se Deus por uma dessas razões que a gente não tem como explicar, no processo de mudança, na necessidade de fazer uma seleção, acabamos dando outro destino a alguns de nossos livros, doando-os a bibliotecas ou leitores interessados.
 
Foi isso o que aconteceu, por exemplo, com um livrinho que vinha me acompanhando desde a adolescência: O príncipe feliz e outros contos, de Oscar Wilde, publicado pela Editoro, com tradução de Paulo Mendes Campos. Uma joia do meu tempo de colégio.
 
O livro reúne nove contos, cuja linguagem assemelha-se a fábulas, nas quais valores como amizade e humildade são ressaltados, sem deixar de discorrer sobre o egoísmo, um dos principais males da humanidade, segundo Wilde. Dos contos destacam-se “O gigante egoísta”, “O rouxinol e a rosa”, “O amigo fiel”, “Um foguete extraordinário” e “O príncipe feliz”, o meu preferido, por retratar a solidariedade, a amizade e a compaixão, embora a maldade humana também esteja ali presente.
 
É um livro que vem me fazendo cobranças, que está me fazendo falta e que, infelizmente, me arrependo de ter me desfeito. Comprar outro não será o mesmo, ainda porque as edições que vi pela internet são diferentes daquela que eu tinha. Era um exemplar antigo, com uma capa antiga e que tinha as minhas marcas de leitura. Ficaram apenas as lembranças, as boas lembranças.
 
Para não ter mais surpresas desagradáveis como essa, o jeito é deixar meus livros repousando na caixa por mais um tempo. Mas não muito, pois outros reclamam meu contato e eu já começo a sentir falta deles em minhas mãos.

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